Sete pacientes com câncer morreram durante o tratamento após receberem medicamentos com suspeita de falsificação, conforme apuração da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. A investigação integra a Operação Placebo e indica que pelo menos 39 pessoas foram atingidas por um esquema criminoso que teria fraudado processos judiciais para a aquisição de remédios oncológicos com recursos públicos.
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| Foto: Polícia Civil RS |
De acordo com as informações da Polícia Civil, a organização investigada era composta por um médico oncologista, advogados e um empresário. A suspeita é de que pacientes fossem orientados a solicitar judicialmente o fornecimento do medicamento Enhertu, de alto custo, sendo posteriormente encaminhados a advogados que atuariam no esquema para ingressar com as ações.
As investigações apontam que, na etapa de apresentação dos orçamentos exigidos pela Justiça, empresas ligadas ao empresário investigado forneciam propostas simuladas para direcionar a compra do medicamento. Dessa forma, a empresa previamente escolhida era contratada para fornecer os produtos pagos com valores liberados por decisões judiciais.
Segundo a Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, o medicamento Enhertu não integra a lista de medicamentos fornecidos regularmente pelo SUS, sendo disponibilizado apenas por determinação judicial. A pasta informou ainda que os remédios investigados foram adquiridos diretamente pelos pacientes ou por seus representantes legais, fora dos processos oficiais de compra do Estado, e anunciou o reforço das medidas de fiscalização nas unidades de atendimento oncológico.
O caso começou a ser investigado após uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel identificar diferenças nas embalagens de medicamentos utilizados no tratamento de câncer de mama. Entre os indícios observados estavam erros de grafia e características incompatíveis com o produto original.
Na avaliação da Polícia Civil, as evidências reunidas indicam que a judicialização da saúde teria sido utilizada para obtenção de vantagens financeiras ilícitas, enquanto pacientes eram expostos ao risco de receber medicamentos adulterados ou falsificados.
A Operação Placebo, deflagrada na segunda-feira (29), resultou no cumprimento de 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão. As ações ocorreram em municípios do Rio Grande do Sul e também nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Ao todo, 15 pessoas e 14 empresas são alvo das investigações.
Entre os investigados está o empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado pela Polícia Civil como responsável por controlar empresas que participariam das concorrências fraudulentas. Durante a operação, foram apreendidos medicamentos, suplementos alimentares e outros produtos sem identificação. O empresário nega as acusações e afirma não ter envolvimento com os demais investigados.
Além do empresário, o médico e três advogados tiveram mandados de busca cumpridos e, por decisão judicial, foram afastados temporariamente do exercício profissional enquanto as investigações prosseguem.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, em fevereiro deste ano, determinou a apreensão e proibiu a comercialização do lote 416466 do medicamento Enhertu após identificar características incompatíveis com o produto original, como diferenças nas tampas, nos frascos e nas embalagens, indicando possível falsificação.
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul anunciou a abertura de sindicância para apurar o caso após receber oficialmente as informações. Já a Prefeitura de São Gabriel confirmou o afastamento do médico investigado de suas funções no município.
As defesas do médico, do empresário e de uma das advogadas investigadas negam a prática de irregularidades e afirmam que irão colaborar com as investigações. Até a última atualização do caso, os representantes dos demais advogados citados não haviam se manifestado.
Outro lado
NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Irmandade Santa Casa de Caridade de São Gabriel, por meio do Serviço de Oncologia, vem a público prestar esclarecimentos à comunidade e aos veículos de imprensa acerca das investigações relacionadas à Operação Placebo.
Até o momento, no âmbito do Serviço de Oncologia da instituição, foi identificada uma ocorrência relacionada a um medicamento adquirido por meio de demanda judicial, não sendo este proveniente da farmácia terceirizada contratada pela Santa Casa para a manipulação dos medicamentos oncológicos.
Durante o processo de preparo da medicação, a farmacêutica responsável constatou alteração nas características físicas da solução. Em conformidade com os protocolos institucionais de segurança do paciente, a manipulação foi imediatamente interrompida, sendo o fato prontamente comunicado à equipe técnica da farmácia responsável, que determinou a não utilização do medicamento.
Na sequência, todas as medidas previstas nos protocolos assistenciais e sanitários foram adotadas, incluindo a imediata notificação aos órgãos competentes para a apuração dos fatos e adoção das providências cabíveis.
Até o momento, as apurações internas indicam tratar-se de uma ocorrência pontual, identificada em razão dos rigorosos processos de conferência, rastreabilidade e controle de qualidade adotados no Serviço de Oncologia.
A Santa Casa esclarece, ainda, que a manipulação dos medicamentos oncológicos é realizada por empresa terceirizada regularmente contratada, a qual possui responsabilidade técnica própria.
Como medida administrativa, visando preservar a regularidade das apurações e assegurar a continuidade da assistência aos pacientes, o médico oncologista Fernando Borges da Silva foi afastado de suas atividades.
Paralelamente, já estão sendo adotadas as providências necessárias para a contratação de um novo profissional, a fim de garantir a manutenção das agendas e dos atendimentos no menor prazo possível, minimizando eventuais impactos aos usuários do serviço.
A Santa Casa tranquiliza os pacientes em tratamento oncológico e seus familiares, informando que a assistência continuará sendo prestada normalmente. Todas as medidas necessárias estão sendo adotadas para assegurar a continuidade dos atendimentos, com segurança, qualidade e sem prejuízo aos tratamentos.
A instituição reafirma que os medicamentos utilizados em seus serviços são submetidos a rigorosos protocolos de recebimento, armazenamento, rastreabilidade, manipulação e conferência, em conformidade com a legislação vigente e com os mais elevados padrões de qualidade e segurança assistencial.
A Irmandade Santa Casa de Caridade de São Gabriel permanece à disposição da Polícia Civil e dos demais órgãos competentes para colaborar integralmente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a ética, a transparência, a segurança dos pacientes e o pleno esclarecimento dos fatos.
São Gabriel, 30 de junho de 2026.
Heitor Dorlei Schünemann
Interventor da Irmandade Santa Casa de Caridade de São Gabriel

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